01/12/2024

Notas escolares não são para isso

Notas escolares não são para isso

Talvez eu precise de mais de uma postagem para escrever sobre este assunto… Eu recebi há pouco um contato de um estudante de doutorado que foi incumbido por sua professora de fazer a correção dos trabalhos dos estudantes da turma dela. Com o retorno das notas, alguns estudantes foram reclamar com a professora a respeito das notas… 

 

Um estudante teria dito para a professora como ele se sentiu mal com a nota porque ele trabalhou por 2 (duas) semanas no projeto e não conseguiu ter uma nota acima da média da turma. Nota: a nota média da turma foi 81 e este estudante ficou com 80 (sim, é uma universidade de altíssimo nível, como se vê). Eu gostaria de pegar esta história real para tecer algumas palavras sobre este assunto.



É função das notas que se tem em escolas e universidades ser uma forma de reconhecimento do esforço do estudante?

Vamos lá… O esforço do estudante pode, por óbvio, resultar em uma boa nota e geralmente resulta, mas o esforço por si só não deve, a meu juízo, ser o definidor da nota do/a estudante. 

 

Imagine que você queira subir uma montanha e para isso você se esforça e dá o seu máximo. Isso é condição necessária (se esforçar na preparação física, mental, escolha e organização dos equipamentos etc.) para conseguir subir a montanha? Penso que para a maioria das pessoas, sim, isso é necessário. Mas isso é suficiente? Penso que não.

Quando o/a professor/a passa um trabalho aos estudante é necessário que se tenha claro a todos os envolvidos no processo (professor/a, estudantes e monitor, no caso) o que se quer com aquele trabalho. A avaliação deve ir ao encontro do que se colocou como objetivo de aprendizagem e se ter claro quais serão os pontos que serão observados, ou seja, se ter claro quais são os critérios que serão utilizados na avaliação do trabalho proposto. 

 

Por exemplo: o trabalho pode consistir em escrever um artigo como se fosse para publicação e é estabelecido que a estrutura do artigo deve contemplar:

  • Título

  • Resumo

  • Palavras-chave

  • Introdução

  • Metodologia

  • Resultados

  • Discussão

  • Conclusões e considerações finais e

  • Referências bibliográficas.

Então, isso deve ser de conhecimento de todos envolvidos no processo e o que se terá de pontuação para cada um destes itens. Dentro destes pode (e deve) deixar claro o que se espera dos estudantes. Por exemplo:

 

Resumo: o resumo deve conter o objeto de estudo, metodologia e resultados/conclusão (por exemplo). Então, quem está escrevendo sabe o que deve ter no resumo e quem vai corrigir sabe o que deve observar: se o estudante escreveu um texto em que se vê o objetivo do estudo, a metodologia utilizada e os resultados então há uma divergência entre o que foi solicitado e o que foi entregue e a pontuação do item é o que vai indicar ao avaliado o quão próximo ele esteve do esperado/solicitado.

 

Introdução: a introdução deve ter os seguintes elementos:

  • Apresentação do tema e da problemática

  • Contextualização do tema

  • Justificativa da pesquisa

  • Descrição do problema

  • Objetivo geral

  • Contribuições

  • Relevância do estudo

Ademais, na introdução não deve conter resultados ou conclusões.

 

Então, o estudante que vai fazer o trabalho (em nosso exemplo escrever um artigo) deve ter isso em mente e quem vai corrigir deve observar se no texto escrito se tem todos os itens. Tudo deve estar claro para que todos os envolvidos no processo saibam o que se quer e o que foi entregue. A pontuação referente a esta parte do trabalho, assim como dito anteriormente, vai indicar ao estudante avaliado o quão perto do solicitado/esperado ele/a está.

 

E assim por diante… Colocamos aqui dois itens do que seria observado na construção do artigo, mas você pode escrever o que quer observar em todos os outros. :-D De um modo geral a pontuação atribuída deve ter esse caráter. Quando fazemos um exame médico e depois fazemos um tratamento não há uma avaliação inicial (exames médicos) e quando retorna ao médico não há mais uma bateria de exames? Em todos os exames se leva em conta as suas taxas com as taxas de referência. O que se quer é chegar o mais próximo possível destas taxas de referência, não é? A avaliação de um trabalho também vai em sentido parecido: avaliar o quanto que os/as estudantes chegaram próximos do esperado/ desejado/ solicitado.

 

Uma sugestão de ferramenta para implementar essa ideia

Talvez não seja possível, em princípio, retirar toda a subjetividade da correção, mas é possível trabalharmos para diminuí-la ao máximo. Uma forma de se fazer isso é colocar esses critérios em uma planilha. Deixaremos uma como exemplo para esta postagem que você pode acessar e fazer uma cópia pra você a partir 👉DESTE LINK👈. Faça uma cópia da planilha pra você e edite os textos.

 

Você terá acesso a uma planilha em que se pode colocar todos os itens que serão observados no trabalho (Coluna C). Na coluna D você define os pesos de cada observação e nas colunas E até J você marca com um X o que julga que o estudante mostrou em que 0 é algo como “nenhum conhecimento foi observado” e 5 é algo como “conhecimento pleno” ou “o apresentado está totalmente de acordo com o esperado.

 

Se os estudantes têm acesso a uma descrição do que é esperado deles/as em relação à atividade que eles têm que desenvolver isso é bom (talvez seja ótimo), pois este instrumento também serve como orientação de estudo ou de escrita.

 

Ademais é sabido também todos os critérios para a correção, tanto para os estudantes que vão fazer o trabalho, tanto para o estudante monitor que vai corrigir os trabalhos quanto para o/a professor/a da disciplina. E se o estudante não achar que algum item está com nota abaixo do que ele/a julga justo, a argumentação deveria ir no sentido de mostrar que no trabalho que ele/a entregou este item está contemplado com excelência e não argumentar que se dedicou duas semanas para o trabalho e que se sente desvalorizado/a ou algo do tipo.

 

NOTA NÃO É PARA ISSO

Nota não é uma forma de valorização da/do pessoa/estudante. Tentando falar a linguagem dos engenheiros (que foi de onde veio o contexto), veja a nota como um SENSOR. Para que ele funcione bem, eu preciso, antes de tudo, saber o que este sensor vai observar: o nível de luminosidade de um ambiente para decidir se liga ou desliga a luz? Ou é um sensor de umidade para saber se liga ou desliga uma irrigação ou um sensor que acompanha a sua pupila para saber onde está olhando e acionar alguma coisa ou emitir algum sinal sonoro se perceber algo específico (por exemplo, que está com sono…). Enfim, NOTA É COMO UM SENSOR.

 

E o que este “sensor” chamado NOTA está observando? Basicamente é o quanto o estudante se aproximou do que era esperado em relação ao aprendizado. Para isso, é necessário que os/as professores/as tenham claro: O QUE É ESPERADO DE APRENDIZADO? QUAIS SÃO OS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM DEVEM SER ALCANÇADOS?

 

De forma simplificada poderia tentar completar a seguinte frase: ao final deste processo é esperado que o/a meu/minha estudante seja capaz de E os estudantes precisam saber disso também, ou seja, o que é esperado deles/as?

 

Sobre monitores corrigindo trabalhos de estudantes de um professor

Eu não sei se há algum objetivo claro quando se pede a estudantes de doutorado que corrijam trabalhos dos estudantes de um/a determinado/a professor/a em uma disciplina/ matéria/ componente curricular/ unidade curricular (mudam tanto os nomes que nem sei o que é certo dizer hoje). Pode ser que, com isso, o/a estudante monitor doutorando/a tenha contato com algum conhecimento que seja importante para o desenvolvimento do doutorado dele/a.

 

Mas mesmo se for assim, eu tenho algumas palavras a dizer sobre este assunto. Eu penso que correção de trabalhos, provas, artigos, etc. seja uma tarefa do/a professor/a regente que não deveria ser terceirizado a estudantes monitores. Faz parte do trabalho do/a professor/a observar e acompanhar o aprendizado dos estudantes. Tudo bem, é um trabalho meio chato, mas é o nosso trabalho como professor/a. Se não corrigirmos esses trabalhos, como saberá no que os estudantes precisam de ajuda? O que os estudantes não entenderam bem, depois da aula expositiva e do trabalho feito?

 

As avaliações de meio de curso, penso eu, precisam ser formativas, ou seja, devem ser avaliações feitas para promover intervenções pedagógicas posteriores para que possam ‘atacar’ os pontos em que os estudantes não entenderam bem o exposto. Aí, talvez, o monitor pudesse ajudar com uma intervenção com os estudantes ajudando eles/as a melhorar nos pontos em que não foram bem.

 

No caso específico da história que usei para abrir esse texto, depois do retorno, os estudantes poderiam ter a oportunidade de pegar o resultado da avaliação do artigo e poder reescrever à luz dos feedbacks (retornos) dados. Qual o problema com isso? A média da turma sair de 81 e ir para 95? Mas não é o que nós, professores, deveríamos querer?

 

Enfim, é isso… Ainda tenho muito a dizer sobre avaliações. Aqui eu me inspirei na história que recebi que envolve estudantes de uma instituição de altíssimo nível (veja só a nota média da turma) em que os estudantes não têm aquelas dificuldades comuns a estudantes de Ensino Fundamental e Médio. Falei aqui sobre o processo que EU julgo ser apropriado, entretanto, é possível que haja outros processos. ;-) 

 

Eis alguns pontos que quero desenvolver em publicações futuras:

  • Reprovação e aprovação de estudantes: como podemos lidar com isso?

  • Notas no Ensino Fundamental e Médio

  • Avaliações: os principais tipos e seus propósitos.

  • Como podemos avaliar seminários

Algum outro tema? :-D

 

Abração pro 6.
Luís Cláudio LA


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